Ela desapareceu sem deixar pistas, mas a dor homônima manteve-se no mesmo lugar. Estava aqui antes de tudo, e permanecerá até que meu corpo esfrie definitivamente, alimentando-se de palavras, sons e olhares para programar sua próxima hibernação. Também ficam as indagações, os medos pueris e a inconformação disfarçada num pedaço de sorriso.
Garimpada ao acaso, jóia rara de brilho único, um acidente bem-vindo que fez enriquecer meu possível futuro, ainda que brevemente. Tão pouco foi o tempo que mal sei se realmente a tive. Em seu lugar dívidas inúmeras sem vencimento definido. Ônus de pensamentos a pagar.
Não pude abraçá-la e expor minha fraqueza. A esperança dessaturou a própria tonalidade, misturando-se ao negrume ao redor e empobrecendo meus sentidos.
Desorientado, resta-me o caminho que conheço de olhos fechados. Faz muito frio na Fortaleza da Solidão.
terça-feira, 7 de junho de 2011
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Eu, o tiranossauro. Eu, o jovem cosmonauta.
Sonhos começam cedo, e logo pela manhã sou Sartre jurássico mal percebendo a própria existência. Através das páginas folheadas pausadamente viro um viajante numa nave de forma perfeita, buscando conhecer a si, por meio de desconhecidos. Bem antes de a tarde começar.
Reconhecendo palavras sem estar adequadamente preparado e com o cérebro ainda se espreguiçando e bocejando sinto-me livre para a aventura imaginária em pequenos quadros coloridos. E escolho os mais extremos personagens: passado e futuro. Irônico pensar na linha do tempo como um círculo, afinal o início e o fim estão tão próximos que chegam a se tocar, como se fossem gerar um novo ciclo vital.
Menos exato e mais humano, qualquer que seja o tempo. Por breves e profundos momentos sou órfão e estou distante de tudo e de todos. Observo, penso e compartilho minhas ideias comigo, afinal, seja pelo vácuo ou pela indiferença, sou sempre ignorado. Se ao menos eu pudesse ver em três dimensões que aquele que lê se reconhece em mim.
O sonho persiste até o entardecer. E sua teimosia me garante que só vai desaparecer quando chegar uma nova aurora.
Reconhecendo palavras sem estar adequadamente preparado e com o cérebro ainda se espreguiçando e bocejando sinto-me livre para a aventura imaginária em pequenos quadros coloridos. E escolho os mais extremos personagens: passado e futuro. Irônico pensar na linha do tempo como um círculo, afinal o início e o fim estão tão próximos que chegam a se tocar, como se fossem gerar um novo ciclo vital.
Menos exato e mais humano, qualquer que seja o tempo. Por breves e profundos momentos sou órfão e estou distante de tudo e de todos. Observo, penso e compartilho minhas ideias comigo, afinal, seja pelo vácuo ou pela indiferença, sou sempre ignorado. Se ao menos eu pudesse ver em três dimensões que aquele que lê se reconhece em mim.
O sonho persiste até o entardecer. E sua teimosia me garante que só vai desaparecer quando chegar uma nova aurora.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Sagan
“Some celestial event. No - no words. No words to describe it. Poetry! They should've sent a poet. So beautiful. So beautiful... I had no idea.”
O tempo que passamos é sucinto neste pálido ponto azul, uma centelha que dura milionésimos de segundo na fogueira que nos cobre totalmente a visão. E uma vida é pouco para nos darmos conta de que uma vida é muito.
Somos pequenos e estamos distantes demais para sermos notados. Sonhamos com a possibilidade de encontrar em algum lugar do universo um aviso para sorrir enquanto filmados. E ainda que o som se propagasse no vácuo nosso grito continuaria a ser por nós ignorado.
Queremos conhecer tudo que nos cerca – se nossos limitados sentidos não conseguem perceber, isso não é importante. O questionamento é nosso dom infinito. E quanto mais sabemos sobre o nosso mundo e os demais, temos a falsa impressão de que igualmente nos conhecemos.
Conquistamos demais e nos sobrou tão pouco.
Porque intolerantes. Porque cegos. Porque breves.
E porque insistimos em não lembrar que somos todos filhos das estrelas e irmãos das pedras.
“You're an interesting species. An interesting mix. You're capable of such beautiful dreams, and such horrible nightmares. You feel so lost, so cut off, so alone, only you're not. See, in all our searching, the only thing we've found that makes the emptiness bearable, is each other.”
O tempo que passamos é sucinto neste pálido ponto azul, uma centelha que dura milionésimos de segundo na fogueira que nos cobre totalmente a visão. E uma vida é pouco para nos darmos conta de que uma vida é muito.
Somos pequenos e estamos distantes demais para sermos notados. Sonhamos com a possibilidade de encontrar em algum lugar do universo um aviso para sorrir enquanto filmados. E ainda que o som se propagasse no vácuo nosso grito continuaria a ser por nós ignorado.
Queremos conhecer tudo que nos cerca – se nossos limitados sentidos não conseguem perceber, isso não é importante. O questionamento é nosso dom infinito. E quanto mais sabemos sobre o nosso mundo e os demais, temos a falsa impressão de que igualmente nos conhecemos.
Conquistamos demais e nos sobrou tão pouco.
Porque intolerantes. Porque cegos. Porque breves.
E porque insistimos em não lembrar que somos todos filhos das estrelas e irmãos das pedras.
“You're an interesting species. An interesting mix. You're capable of such beautiful dreams, and such horrible nightmares. You feel so lost, so cut off, so alone, only you're not. See, in all our searching, the only thing we've found that makes the emptiness bearable, is each other.”
sexta-feira, 11 de março de 2011
No hay banda. No hay orquestra. Silencio.
Qual é o fim da jornada? Vejo o caminho e o percebo íngreme, claustrofóbico e tortuoso. Os músculos falham, a garganta implora água, o pensamento confunde a realidade. Mas eu tenho de chegar. Não sei aonde. Ainda.
Sigo sozinho com uma ajuda esporádica do vento a favor. Os intervalos para retomar o fôlego ficam mais constantes, fazendo com que eu reconheça meu engano ao acreditar que a idade seria um fator decisivo para o sucesso da empreitada. Meu tempo de nada vale aqui, onde o imprevisto é regra e o discernimento sucumbe diante da crescente falta de razão. Talvez esta seja uma pista para planejar meus próximos passos.
Olho para baixo e para trás, diversas vezes. Não para falsificar qualquer arrependimento, mas para me permitir alguns momentos de orgulho quase infantil. É essencial para renovar o ânimo e confesso que me faz um bem danado.
Sinto que estou próximo do topo. O ar rarefeito, a taquicardia e a pressão elevada confirmam meu sentimento. As mãos trêmulas reagindo ao frio interior, as pupilas dilatadas em resposta à escuridão que chega, os ouvidos tentando amenizar o impacto dos trovões, a voz relutante em sair... Não, a voz sai! Sem esperar, sem se preparar, sem explicar, simplesmente aproveitando a primeira oportunidade. Não é grito, mas ecoa incessante e se propaga discretamente. Faz o cenário mudar ao proferir palavras breves. Faz quase todos os elementos desvanecerem e o calor e a tranquilidade voltarem ao meu domínio.
Eu precisava chegar aqui, no começo de tudo.
Sigo sozinho com uma ajuda esporádica do vento a favor. Os intervalos para retomar o fôlego ficam mais constantes, fazendo com que eu reconheça meu engano ao acreditar que a idade seria um fator decisivo para o sucesso da empreitada. Meu tempo de nada vale aqui, onde o imprevisto é regra e o discernimento sucumbe diante da crescente falta de razão. Talvez esta seja uma pista para planejar meus próximos passos.
Olho para baixo e para trás, diversas vezes. Não para falsificar qualquer arrependimento, mas para me permitir alguns momentos de orgulho quase infantil. É essencial para renovar o ânimo e confesso que me faz um bem danado.
Sinto que estou próximo do topo. O ar rarefeito, a taquicardia e a pressão elevada confirmam meu sentimento. As mãos trêmulas reagindo ao frio interior, as pupilas dilatadas em resposta à escuridão que chega, os ouvidos tentando amenizar o impacto dos trovões, a voz relutante em sair... Não, a voz sai! Sem esperar, sem se preparar, sem explicar, simplesmente aproveitando a primeira oportunidade. Não é grito, mas ecoa incessante e se propaga discretamente. Faz o cenário mudar ao proferir palavras breves. Faz quase todos os elementos desvanecerem e o calor e a tranquilidade voltarem ao meu domínio.
Eu precisava chegar aqui, no começo de tudo.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Inimigo Meu
Um espelho que mente e me reflete mais belo, como a história de Dorian Gray narrada pelo ponto de vista do quadro. Uma idéia distante, do lado oposto, mas que a cada visita mostra ser tão próxima quanto minha pele. Uma afronta à minha persistente ignorância. Um sangue não coagulado fora de meu corpo. Jorrando vida. É o que és.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Rádio
Estive pensando em você, então não é surpresa te ver em todos os lugares como uma holografia muda que sempre me observa. Sinto que não pertenço a esse lugar porque só - é estranho, mesmo sabendo o que passa em minha cabeça e o que isso me faz.
Estaria tudo morrendo? Devo ficar melhor morto, pois a cada momento sou devorado vivo e não vejo a possibilidade de mudança. Fosse consciente teu rosto projetado ele saberia que não posso mudar. Sei não ser o que transforma, mas sei ser a causa da transformação. Ah, como eu gostaria que não estivesse tudo quebrado.
Vejo onde piso e por onde você flutua, mas não sei aonde vamos, se é que vamos em frente. Você realmente vai parar? Acho que você não o faria para não correr o risco de um hematoma. A verdade é que nunca me importei, porque só – mais uma vez.
Todas essas coisas poderiam ser desfeitas num sopro, é o que espero. Seria a maneira mais fácil para conseguir dormir e ter um sonho bom.
Estaria tudo morrendo? Devo ficar melhor morto, pois a cada momento sou devorado vivo e não vejo a possibilidade de mudança. Fosse consciente teu rosto projetado ele saberia que não posso mudar. Sei não ser o que transforma, mas sei ser a causa da transformação. Ah, como eu gostaria que não estivesse tudo quebrado.
Vejo onde piso e por onde você flutua, mas não sei aonde vamos, se é que vamos em frente. Você realmente vai parar? Acho que você não o faria para não correr o risco de um hematoma. A verdade é que nunca me importei, porque só – mais uma vez.
Todas essas coisas poderiam ser desfeitas num sopro, é o que espero. Seria a maneira mais fácil para conseguir dormir e ter um sonho bom.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Lamento de Oneiros
Eu quero morrer. É só nisso que penso. Mais: quero morrer e descobrir que estava errado em relação à possibilidade de. Para ser esquecido ao criar um abismo da linha tênue que me separa da realidade. Para libertar quem depende de mim e lhe dar visão panorâmica, de modo que nem a infinita poeira das estrelas possa lhe inebriar de fantasia e lhe aprisionar como de costume. Quero morrer porque não posso, pois não sou deus e não pereço pela total descrença alheia. Porque tenho todos os sonhos sem poder conceder sequer o menor deles a mim, e sigo o caminho perpétuo ainda que olhe para trás com frequência. Quero apenas morrer para poder renascer e voltar a morrer. É pouco. E é tudo.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Acalanto
Tento um pouco de tudo: ver, ler e ouvir. Mas meus olhos não se cansam e meu ouvido se entretém facilmente. Quanto mais absorvo, menos os sentidos me obedecem. Guiam-se independentes em direção a qualquer coisa que lhes chame a atenção. Como não se desprendem, levam-me inteiro, sem pedir minha opinião. Músicas de filmes de livros de desenhos. Quando não, invento. Criando, animo ainda mais. E aí não existe leite morno nem cantiga que faça dormir a criança dentro de mim.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Me and the Devil
Ela veio e ficou. Não a expulsei, com medo de aumentá-la. E a aumentaria, certamente. Aconteceu outras vezes, sei bem que é pior fechar-lhe a porta. Mas era ao mesmo tempo desejada: em outros momentos sua estadia ajudou-me a expor o que não sabia estar guardado dentro de mim. Assim eu lhe servia o alimento. E durante algum tempo essa simbiose funcionou perfeitamente, ignorando sentimentos que não fossem egoístas e aperfeiçoando a si. Poderia ter sido tal qual um moto contínuo caso meu caminho não estivesse minado de surpresas. E foi numa súbita mudança de direção que se desprendeu de mim rápida, porém suavemente, em busca de outro hospedeiro.
Cumprimentou-me tímida e hesitante, como sempre. A cada visita parece temer que eu não a reconheça, não percebe que eu sinto sua presença à distância. A memória falha às vezes, mas velhas e duradouras relações não são esquecidas facilmente. Dei-lhe um longo abraço, menos para confortá-la, mais para que me tomasse de uma vez, possuísse minha mente e meu corpo da maneira mais direta possível. Sou um condenado à morte que estica o pescoço para facilitar o corte da guilhotina. Nada de fútil resistência, nada de jogo de gato e rato. Conhecemo-nos bem demais para isso.
Permaneceu doce e gentil enquanto dilacerava minha carne regenerada. Uma violenta amante consciente de meus medos, defeitos e necessidades, e que oferece amor incondicional com a mesma espontaneidade com que tenta arrancar meu coração à força. Invariavelmente, com minha eterna permissão. Feito uma “dor criada para curar a dor”. Como “um blues que não se acaba dentro do meu pensamento”.
Cumprimentou-me tímida e hesitante, como sempre. A cada visita parece temer que eu não a reconheça, não percebe que eu sinto sua presença à distância. A memória falha às vezes, mas velhas e duradouras relações não são esquecidas facilmente. Dei-lhe um longo abraço, menos para confortá-la, mais para que me tomasse de uma vez, possuísse minha mente e meu corpo da maneira mais direta possível. Sou um condenado à morte que estica o pescoço para facilitar o corte da guilhotina. Nada de fútil resistência, nada de jogo de gato e rato. Conhecemo-nos bem demais para isso.
Permaneceu doce e gentil enquanto dilacerava minha carne regenerada. Uma violenta amante consciente de meus medos, defeitos e necessidades, e que oferece amor incondicional com a mesma espontaneidade com que tenta arrancar meu coração à força. Invariavelmente, com minha eterna permissão. Feito uma “dor criada para curar a dor”. Como “um blues que não se acaba dentro do meu pensamento”.
Um Corpo Que Cai
Todos eles pegavam as garotas. Ou diziam que pegavam. Contavam ótimas histórias, algumas delas inacreditáveis. Nos meus catorze, quinze anos de idade, qualquer história envolvendo garotas e mais que meros beijos já soava inacreditável. A época era outra, a turma era bem mais tímida e nem tinha sido inventado o termo “ficar”. Tudo era mais difícil, inclusive namorar sem a presença dos pais da moça. Sexo, então, era praticamente impossível. Tabu que impedia conversas mais detalhadas com amigos e com a família. Contavam alguma coisa sobre as aventuras, fingindo serem os fodões. Eu fingia que acreditava. Não me restava outra coisa, de qualquer maneira.
Porque eu queria algo mais. Porque sexo com quem a gente gosta deveria ser a melhor coisa do mundo. Transar por transar não seria ruim, claro, mas se houvesse envolvimento sentimental, ah, certamente o prazer tomaria outras proporções. Era o que eu achava, mais uma utopia romântica de minha coleção. Mas preferia não comentar abertamente sobre esse ponto de vista, uma vez que no colégio os caras seguem a cartilha padrão de zoação em coro uníssono. Não por medo ou constrangimento, mas sabia que aquele tipo de mentalidade padrão não compreenderia que um cara pudesse ter idéias geralmente atribuídas ao sexo feminino. “É viadinho, certeza”. Melhor deixar pra lá.
Tudo em minha vida aconteceu mais tarde. Tudo. Posso dizer que aproveitei o máximo a infância e a ingenuidade prolongou-se além do tempo normal. Talvez isso tenha feito eu me sentir deslocado nas conversas com os colegas. Enquanto todos falavam de carros e possibilidades de pegar as garotas, eu continuava com os amores platônicos, sonhando com um relacionamento cinematográfico, dando mais valor à amizade e sem entender bulhufas sobre automóveis (na verdade, não entendo até hoje). Minha timidez também contribuiu para as coisas demorarem bastante a acontecer.
Acredito que a maioria das pessoas não entenderia. Mas não foi no meu primeiro relacionamento sério, que acreditava poder durar para sempre – e esse sempre, na realidade, foi muito pouco – que cheguei às vias de fato. Houve as primeiras descobertas e sensações, também houve oportunidade e certamente não faltou vontade. Entretanto, um desejo era compelido por outro: ela queria antes de tudo casar, para, aí sim, formar família e tudo mais. Nada fora do normal para uma mulher há quinze anos, criada dessa maneira. Não teria problema, afinal, seria pra sempre, certo?
Depois do desabamento, o que sobrou foi incerteza, decepção mais um punhado de sentimentos negativos. Já não fazia mais sentido acreditar na fantasia e, aos poucos, mudei da água para a aguardente. Literalmente, inclusive.
Quando me dei por conta, sem planejar nada, estava resolvendo a “pendência” a la Raimundos: em casa de tolerância, cheio de bebida barata na cabeça e sem lembrar depois se foi realmente bom ou não.
Loucura, né?
Porque eu queria algo mais. Porque sexo com quem a gente gosta deveria ser a melhor coisa do mundo. Transar por transar não seria ruim, claro, mas se houvesse envolvimento sentimental, ah, certamente o prazer tomaria outras proporções. Era o que eu achava, mais uma utopia romântica de minha coleção. Mas preferia não comentar abertamente sobre esse ponto de vista, uma vez que no colégio os caras seguem a cartilha padrão de zoação em coro uníssono. Não por medo ou constrangimento, mas sabia que aquele tipo de mentalidade padrão não compreenderia que um cara pudesse ter idéias geralmente atribuídas ao sexo feminino. “É viadinho, certeza”. Melhor deixar pra lá.
Tudo em minha vida aconteceu mais tarde. Tudo. Posso dizer que aproveitei o máximo a infância e a ingenuidade prolongou-se além do tempo normal. Talvez isso tenha feito eu me sentir deslocado nas conversas com os colegas. Enquanto todos falavam de carros e possibilidades de pegar as garotas, eu continuava com os amores platônicos, sonhando com um relacionamento cinematográfico, dando mais valor à amizade e sem entender bulhufas sobre automóveis (na verdade, não entendo até hoje). Minha timidez também contribuiu para as coisas demorarem bastante a acontecer.
Acredito que a maioria das pessoas não entenderia. Mas não foi no meu primeiro relacionamento sério, que acreditava poder durar para sempre – e esse sempre, na realidade, foi muito pouco – que cheguei às vias de fato. Houve as primeiras descobertas e sensações, também houve oportunidade e certamente não faltou vontade. Entretanto, um desejo era compelido por outro: ela queria antes de tudo casar, para, aí sim, formar família e tudo mais. Nada fora do normal para uma mulher há quinze anos, criada dessa maneira. Não teria problema, afinal, seria pra sempre, certo?
Depois do desabamento, o que sobrou foi incerteza, decepção mais um punhado de sentimentos negativos. Já não fazia mais sentido acreditar na fantasia e, aos poucos, mudei da água para a aguardente. Literalmente, inclusive.
Quando me dei por conta, sem planejar nada, estava resolvendo a “pendência” a la Raimundos: em casa de tolerância, cheio de bebida barata na cabeça e sem lembrar depois se foi realmente bom ou não.
Loucura, né?
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