quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Suspense

Seu aviso de chegada não passou pela peneira de meu ceticismo. Ela é amável e não sai de meus pensamentos, mas a probabilidade de aparecer ali era pequena. Um caminho fora de sua rota, o horário não muito favorável e algumas doses de álcool para alimentar seu cansaço. Ela não viria, certamente, e eu entenderia. Muitas vezes dizemos essas coisas automaticamente, prometemos fazer uma visita ou nos encontrarmos por aí (“a gente se vê”)... Entretanto, em algum ponto, mudamos de ideia, a preguiça nos amarra, procrastinamos. E a vida segue sem maiores incidentes. É o que normalmente acontece, certo? Talvez por isso a surpresa ao vê-la abrindo a porta do bar. O sorriso, a voz doce, os gestos pausados e a serenidade, tudo em uma involuntária sincronia para me fazer entender o quanto foi maravilhoso estar errado. Pareceu breve demais, como todas as coisas boas, mas foi o suficiente para perceber a diferença que ela fez. E continua fazendo.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Amianto

Ando com calma, não corro riscos.
Rabisco redemoinhos nas laterais do caderno.
Sempre à margem.
Rio sem mostrar os dentes de fumo.
Trago em minhas mãos apenas tua foto em preto e branco.
Dou-lhe cor mentalmente - é sempre diferente, todas as vezes.
Multiplico as alegrias de um coração que ainda queima,
mas é incapaz de mostrar seu ardor.
E chamas meu nome apenas em delírios meus.
O que mais tenho, além de uma loucura que jamais será extirpada?

domingo, 28 de outubro de 2012

360º

No carro em alta velocidade, cada volta no circuito fechado é uma corrida inútil contra o tempo, porque tento alcançar o passado. Vejo sempre a linha de chegada, mas gostaria de reconhecê-la como ponto inicial, sentindo a mesma ansiedade que havia no começo de tudo, e acreditando que tudo seria possível após o sinal verde.

É estranho perceber a mudança de pensamento ao sentir saudade das próprias ideias.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Desmemória

Não está mais lá. Parece absurdo, inacreditável a princípio, mas realmente os vestígios desapareceram completamente. Sobraram apenas migalhas de lembranças distorcidas e desfocadas da infância. Um período tão fértil quanto efêmero que agora se assemelha a sonhos enevoados. Dos registros vem outra surpresa: reconheço neles minha letra, minha sensibilidade, mas não sobrevivem a uma revisão. A ficção omito, o resultado são páginas em branco e silêncio. Pode ter sido uma longa embriaguez, um delírio febril. Ou apenas eu que não estava lá.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Vir A Mim

Criar o monstro. Esculpir seus olhos, dentes, garras, chifres, corpo. Detalhar a textura da pele, escolher pacientemente as tonalidades da paleta, definir suas deformidades físicas e atribuir-lhe a voz gutural. Estudar o melhor disfarce.

Olhar para dentro dele e imbuir-lhe personalidade crível e independente. Presenteá-lo com um passado, preenchendo cada compartimento de memória. Roubar-lhe a inocência, mostrando a ele todo o mal. Justificar suas ações e aceitar suas reações.

Alimentá-lo, fornecer-lhe abrigo, treiná-lo. Torná-lo dependente de teus cuidados. Falar com ele e tornar-se tão dependente quanto. Amá-lo e escondê-lo do mundo e de teu egoísmo. Temer suas aparições aleatórias. Esquecê-lo.

Assustar-se ao vê-lo novamente. Desistir de conter o calafrio e o desespero. Tentar fugir dele até reconhecer-se inútil, patético e grotesco. Finalmente dar-lhe o primeiro abraço, para a estranheza de ambos. Recomeçar.

domingo, 10 de junho de 2012

O Álcool, o Cigarro, as Mãos e o Fogo

Era o que havia: os raros minutos, as pequenas descobertas, os sonhos. A fixação em selecionar trilhas sonoras, as palavras reais dedicadas aos fantasmas, o desequilíbrio no universo, a sensação térmica rindo da previsão do tempo. E a rocha invencível e impiedosa, testando todos os meus limites.

À mesa, memórias servidas quentes para evitar distorções. A similaridade está em tudo, do ruído abafado das conversas ao frio que corta minha pele. Música, rostos conhecidos, minhas roupas e meu gradual desenvolvimento etílico. A mente detalha cada momento, cada espaço percorrido em sua companhia, mesmo tanto tempo depois.

Das voltas do mundo não me dou conta. Ainda estou onde e quando ele deixou de existir por um breve período. Desejo a chuva incessante para me fazer acordado, o vento forte inutilizando qualquer proteção. Mas apenas o deserto silencioso e constante é a mim concedido. A sede segue.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Vintage

Ouço-te na música inocente do velho rádio. Estás a cantarolar sem saber, resumindo a letra da canção num “lá-lá-lá” de desafinado charme. Assovias o refrão enquanto ajeitas os bibelôs sobre o criado-mudo, sempre a mudar suas posições, quase a cada final de dia. Felicidade boba e verdadeira, como as que importam. És consciente disso. Sorris.

Da cama preguiçosa, fito-te próxima aos pequenos quadros de Elvgren na parede e posso fantasiar a inveja das musas ilustradas em pinceladas curvas. Desdenham de ti. Odeiam-te. Pois tu transformas suas belas formas e cores em rascunhos de grafite. Posas sempre, porque natural.

Soltas os cabelos louros lentamente e olhas diretamente para mim com teu olhar de fogo. Percebes minha crescente ansiedade a cada passo teu em minha direção e, ao me concederes o beijo que poderia ser o último, subtrais minha vida. E a suscitas de volta em meu corpo, logo em seguida, da mesma maneira. Tua é a noite. Meu é o privilégio.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Sempre-noite

Não fosse a fornalha criada instantaneamente dentro de meu peito e a vontade de permanecer consciente para admirar o que me cega os olhos, teria morrido congelado antes de perceber o frio chegar junto à escuridão. Não posso chamar de controle o que é reação involuntária, mas falho ao tentar imaginar como poderia ser diferente, mesmo para outras pessoas. Ao primeiro olhar, a sensação de estar sozinho ainda que bilhões estivessem ao meu lado. As pupilas dilatadas se acostumam rapidamente ao negrume, pois há incontáveis pontos luminosos para onde quer que as direcione. São estes pontos que me interessam, deles sou parte. Quero me aproximar, sentir o calor materno e voltar ao ventre incandescente. A distância, entretanto, limita meus desejos, derrota minha utopia. Resta-me apenas vislumbrar o que é belo e raro pelo tempo que me é concedido, esquecendo-me do caminho de casa.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Meu Mundo Repleto de Cinza

Ando depressa, embora meu raciocínio não consiga acompanhar a velocidade dos meus passos. Os buracos nas solas de meus sapatos. Ajeito minha roupa surrada enquanto caminho determinado e um tanto distraído. Minha gravata sempre torta. Atrapalhado que sou, não poderiam ser diferentes meus pensamentos. Arrumar dinheiro, não por esse caminho, aqui tem polícia, como é adorável a moça que vende flores, seus cabelos, seus olhos, minha fome, não comi nada hoje, preciso de dinheiro, ela é tão linda... O tempo passa acelerado, não me ajuda, e acabo não prosseguindo, pois preciso desviar sempre o caminho. Correr de quem me maltrata. Cansado, faminto, encontro novamente a vendedora que cheira a rosas. Peço desculpas, não poderei comprar flores. Ela me reconhece e diz que está tudo bem. Sorri e o tempo pára. Está tudo bem.

sábado, 28 de abril de 2012

Compasso

Ela dança sem parar. Seus movimentos delicados são improvisados de maneira perfeita, como se a melodia criasse vida própria e a acompanhasse conscientemente, adaptando-se para manter a sincronia. A luz fraca vinda da janela ao entardecer serve de holofote para seu pequeno palco, sala de estar nas horas vagas, fazendo cintilar as partículas de poeira que flutuam junto à fumaça do cigarro à mesa. Não há qualquer ruído em seus passos, leve e elegante bailarina. Ainda assim, parece pisar firme e confiante com seus olhos fechados e ouvidos atentos. Ouviria facilmente minha respiração, se eu não estivesse estático, espectador hipnotizado cheio de temor e desejo. Dominado pelo seu encanto, percebo-me tímido e incapaz de me reconhecer desperto. Ignoro meus pensamentos e dúvidas, resta-me a concentração para não piscar os olhos e correr o risco de perder décimos de segundo. Num momento está diante de mim, olhando pra mim, sorrindo pra mim. Noutro, balança suavemente os quadris, virando-se para outra direção, ela e eu nos esquecendo de minha existência. Apenas ela é. E será até que a música acabe.